Pitangas

Drupas globosas, carnosas, vermelhas e bastante saborosas.

Daffofils growing by the sea

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Estou no limiar entre desistir e esperar para ver o quanto dessa vida eu ainda agüento.

No cursinho, há uns quatro anos de atrás, meu professor de literatura fez um discurso pra lá de apaixonado sobre o amor, gritando a plenos pulmões: “quando você está apaixonado por alguém, aquela pessoa é o farol da sua vida”. (Eu anotei dentro da minha apostila de física essa frase – farol da sua vida – como se algum dia eu fosse esquecer do que ele disse.)
Ele estava uma caricatura perfeita desse discurso. Juro que ele literalmente arrancou a maioria dos poucos fios de cabelo ainda remanescentes em sua cabeça enquanto berrava que “nada significa o mesmo tanto que antes quando não se tem quem sem ama ao lado”.

Um dos rapazes que estavam na minha sala perguntou, com uma vozinha meio irônica, meio incrédula: “Betão, você acredita mesmo que não é possível desfrutar de, sei lá, festas, sem alguém por quem você está apaixonado?”.
“Claro que não é possível”, meu professor respondeu. “Não completamente. Você pode ter toda a beleza mundo e todas as outras virtudes ou pecados nessa festa, mas tudo isso é muito menor sem que você testemunhe todo esse burburinho de emoções acontecendo em você mesmo. Tudo é inferior a isso. O amor acontece quando você vê alguém sublime e seu primeiro pensamento é que a pessoa deveria estar com você. Não é nem a metade de bom sem essa pessoa. Ela te ilumina. Ela faz tudo parecer mais.”

Hoje eu sei que tudo é mais complicado do que ele disse. Nós só conhecemos um décimo da verdade, se tanto. Há milhões de variáveis presas a cada escolha que fazemos; você pode destruir sua vida a cada uma delas. Mas talvez você só descubra as conseqüências daqui a 20 anos, e você nunca vai conseguir lembrar o porquê isso aconteceu. Você só tem uma chance para jogar esse jogo.
Tente pensar como se desenrolaria sua vida de hoje até o seu divórcio, por exemplo.

Por toda a minha vida eu acreditei que não há destino, mas há: o destino acontece conforme você escolhe. Mesmo que o mundo continue a existir por milhões de anos, eu só estarei aqui por uma fração ínfima de tempo. Na maior parte deste, aliás, eu não tinha nascido ou estarei morta. Mas enquanto você está vivo, você espera em vão, desperdiça anos esperando por uma ligação ou uma carta ou um olhar de alguém que possa fazer tudo dar certo. E isso nunca acontece, ou parece que acontece mas é alarme falso.

Você gasta seu tempo em um arrependimento vago ou uma esperança ainda mais vazia de que algo bom vá surgir. Alguém que te faça sentir em união com o mundo, se sentir completo, se sentir amado.
A verdade é que estou tão irritada e tão triste, e que eu fui tão machucada por tanto tempo, sempre fingindo estar bem só para tentar esboçar algum progresso, só, sei lá, porque ninguém jamais quer ouvir os problemas dos outros, talvez porque tenham os seus próprios problemas e eles sejam demasiado pesados para que ouçam ou se preocupem comigo.

Tenho passado por essa vida convencendo a todos de que acredito em mim mesma. “Estou bem”, é o que eu digo. “Não poderia estar melhor”. Mas às vezes a verdade desce que nem uma macumba em mim e eu não consigo despachá-la. É nessa hora que eu percebo que não é preciso responder isso para os outros – mas que eu preciso perguntar se o que eu digo é verdade. Agora mesmo eu estou me perguntando quanto da minha vida se convenceu.

Escrito por ana marques

9.03.2009 em 1:59 pm

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Mundo admirável

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Povinho ridículo e mequetrefe.
Essa é minha melhor definição desse pessoal empresarial que, quando quer fazer fofocas, liga para o ramal da pessoa com quem se quer fofocar.

E eu morro de raiva porque tenho que resolver uma bomba de outra pessoa só porque ela está ocupada… fofocando.

Nada contra fazer fuxico da vida alheia, não. Também gosto de saber mais do que é necessário sobre os outros, oras. Mas será que é realmente necessário fazer isso na hora do trabalho, com pessoas do trabalho, sobre pessoas do trabalho?

Depois eu falo que aqui é insuportável e neguinho acha que eu “não agüento a pressão do dia-a-dia”.
Se a questão fosse essa, estava ótimo. O problema é que o dia-a-dia daqui não tem pressão, entende? Meu trabalho é simples e me divirto com ele, não me sinto pressionada (ou preciso ser pressionada) a fazer nada.

O foda mesmo é trabalhar em uma empresa onde os problemas não estão no trabalho em si, mas nas pessoas que dividem o ambiente.

Escrito por ana marques

2.03.2009 em 6:01 pm

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Bombinha

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Meu trabalho é um hospício sincretista.

No café da manhã ouço que não posso usar o verbo “adorar” em quaisquer situações que não envolvam Jeová, porque só se adora ao verdadeiro Deus e a simples menção desta palavra já o condena ao fogo-eterno-amém.

Às 9.30h sou doutrinada sobre uma cirurgia espiritual (ou cura-passe, ou qualquer coisa que o valha) que cura depressão através do auxílio dos espíritos – e cujo procedimento envolve beber água todos os dias úteis, às 8 horas da noite. Aos fins de semana você está dispensado desta prática.

Ao meio-dia, ouço as maravilhas mormônicas sobre a lendária e sangrenta batalha de Cumora, ocorrida em uma colina onde arqueólogo algum jamais encontrou o menor vestígio de cadáveres – e cuja religião conta com um anjo chamado Moroni, o que me leva a crer que descobri a origem da palavra “moronic”.

E tudo isso porque nem em espírito ou salvação eu acredito.

Escrito por ana marques

13.02.2009 em 2:59 pm

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Legendary girlfriend

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É estranho pensar em como nossos gostos mudam, né?

Quando foi lançado, eu relutei em assistir a “O fabuloso destino de Amélie Poulain”. Estava no rol dos filmes que iniciei e parei antes da metade. Era um daqueles dias em que não se quer pensar; dia impaciente, insensível. Não era dia de Amélie Poulain.
O dia de Amélie chegou num amanhecer de angústia. Desconforto e um choro engasgado que não saía e nem sabia por que estava ali. A cama parecia de pedra. Só me restou levantar e fazer um chá, como uma tentativa de apazigüar meus humores. “Preciso de um filme para botar choro para fora”, pensei.

Procurando nas prateleiras da locadora, encontrei O tal fabuloso destino. Não tinha certeza se me faria ir às lágrimas, mas na hora percebi que talvez precisasse não tanto de dramas, mas de algo que me embalasse. Um filme que me pegasse no colo.
Logo de cara, com as primeiras cenas da Amélie criança brincando com as coisas pequenas do dia-a-dia, fui mergulhando naquele universo intimista de simplicidade e esquecendo minha própria dor.

Tenho por princípio não ficar me questionando por que não fiz isto ou aquilo antes. Mas quanto a esse filme caberia muito bem a frase “por que não o assisti antes?”. Não é à toa que todos que o tinham assistiram me davam um olhar misericordioso e compassivo quando eu confessava que ainda não conhecia o fabuloso destino de Amélie Poulain. Agora faço o mesmo, mas não por arrogância. É que, sinceramente, eu gostaria que todas as pessoas que amo assistissem a esse filme.

Porque ele é mágico. Porque tem o poder de ser inocente mesmo quando fala de orgasmo ou quando insinua uma cena de sexo no banheiro. Porque ele é muito real, escancarando os detalhes da existência humana, mas também nos fazendo embarcar em fantasias. Porque ele é uma festa para os olhos com suas cores fortes, a mistura ideal de quente e frio. É uma espécie de fábula sobre uma garota que depois de fazer um pequeno ato de bondade resolve devotar sua vida a resolver os problemas das outras pessoas.

Quem nunca teve vontade de decidir o destino alheio? Sobretudo daqueles que amamos e percebemos que metem os pés pelas mãos constantemente. Isso é o mais óbvio: querer influenciar as escolhas daquela amiga que está sempre sofrendo pelos caras errados, por exemplo. Mas temos vontade de nos intrometer em aspectos bem mais prosaicos da vida dos que estão ao nosso redor. Mesmo quando nosso próximo não dá mostras de que está infeliz com sua situação. Sempre enxergamos algo que poderíamos transformar e que faria a vida dos outros ficar muito melhor (na nossa opinião). A roupa que a amiga deve usar, pra onde nossos pais deveriam viajar nas férias, o emprego que o irmão deveria aceitar… É fácil e tentador demais sair por aí palpitando. Afinal, para os problemas alheios sempre temos solução.

Inclusive nos meteríamos na vida de Amélie, se possível, para fazer com que ela parasse de brincar com o próprio destino. Ela inventa mil artimanhas para adiar o encontro com aquele que pode vir a ser o homem de sua vida. Incomoda ver que alguém está indo devagar demais ao encontro de algo positivo para sua vida. Amélie poderia ter toda a pressa do mundo em encontrar o amor, mas quando a possibilidade se apresenta ela vai devagar e ainda cria obstáculos até chegar ao cara-a-cara. Por um lado, ela age assim por medo, já que sempre deixou a vida passar sem correr atrás de nenhum grande objetivo.

Mas também podemos enxergar a atitude dela por outro ângulo: todas essas artimanhas que ela usa, fazendo mil voltas antes do destino final, são uma forma de saborear melhor cada acontecimento. Sem pressa, sem correria, ela acabou encontrando o objeto de sua paixão, fazendo com que ele ficasse intrigado por ela a cada nova brincadeira. Adiar o prazer pode ser o maior estimulante. Viver uma conquista há muito desejada é maravilhoso, mas a expectativa para a chegada do grande momento também pode ser incrível. A preparação, o anseio, o contar as horas fazem parte da brincadeira da vida e com Amélie é possível perceber o quanto essa espera pode ser criativa.

Aliás, Amélie Poulain é um filme sobre criatividade, sobre não se render ao básico, ao tudo igual. É uma história sobre tentar fazer a vida diferente nas pequenas coisas e transformar a vida dos outros com pequenos gestos. Amélie pode ser uma personagem que se refugia no altruísmo para disfarçar o próprio medo, mas assistindo ao filme o que mais aprendi foi a ter menos medo, a deixar as idéias correrem mais soltas. Depois de os créditos subirem na tela eu já não tinha mais um choro engasgado e sim uma sensação de “como pude passar tanto tempo de minha vida sem conhecer essa história?”.

Escrito por ana marques

22.01.2009 em 4:35 pm

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Ortodoxa

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Há algum tempo atrás rolavam memes sobre músicas nos blogs. Nessa época eu tinha o finado Pura Coléra, onde postava minhas besteiras juvenis – nada que não pudesse constar aqui, o que prova que, no fim das contas, ninguém muda tanto assim.

Este meme sobre as músicas que fariam a trilha sonora do filme da minha vida estava lá.
Incrível como o tempo passa, mas nós continuamos a mesma coisa. Só precisei adicionar mais um tópico – o segundo amor, porque todo amor termina um dia… e a vida consiste simplesmente em fazer tudo o que se deve antes que sua matéria expire.

Aliás, como é linda a letra de “Jeffrey goes…”. Não se fazem mais letristas como antigamente.

Créditos iniciais: We Are Scientists – Can’t lose
Cena em que acorda: Moldy Peaches – Jorge Regula
Primeiro dia na escola: Jethro Tull – Jeffrey goes to Leicester Square
Primeiro amor: Devendra Banhart – Dogs, they make up the dark
Cena de luta: Magic Numbers – This is a song
Fim de relacionamento: Yann Tiersen – La Veillée
Segundo amor: The Fratellis – Babydoll
Festa de formatura: Elliott Smith – King’s Crossing
Dia-a-dia: Los Hermanos – Sapato novo
Colapsos mentais, comas alcoólicos, overdoses…: Kasabian – Ovary Stripe
Dirigindo: Johnny Cash – Hurt
Flashback: Gotan Project – La cumparsita/Ceriota
Casamento: Sufjan Stevens – The transfiguration
Nascimento do filho: Kaiser Chiefs – Ruby
Batalha final: Beirut – Elephant Gun
Cena da morte: Jethro Tull – Locomotive Breath
Música do funeral: Morphine – Dawna
Créditos finais: Elliott Smith – Between the bars

Escrito por ana marques

18.01.2009 em 4:08 pm

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