Archive for Fevereiro 2008
Um parágrafo às terças
Aquele que perdeu os símbolos históricos e não pode contentar-se com um substitutivo encontra-se hoje em situação difícil: diante dele o nada bocejante, do qual ele se aparta atemorizado. Pior ainda: o vácuo é preenchido com absurdas idéias político-sociais e todas elas se caracterizam por sua desolação espiritual. Mas quem não consegue conviver com esses pedantismos doutrinários vê-se forçado a recorrer seriamente à sua confiança em Deus, embora em geral se constate que o medo é ainda mais convincente. (…) É perigoso confessar a própria pobreza espiritual, pois o pobre cobiça e quem cobiça atrai fatalidade.
In JUNG, Karl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 26.
Geek matemática
Confesso que fico triste quando algumas descobertas científicas são feitas – como agora, com a resolução de mais um problema matemático. Não sou, por óbvio, uma adepta do criacionismo, para quem é melhor não saber do que mudar de opinião, mas existe uma certa beleza em não-saber – sendo que este é diametralmente oposto a ignorar.
Uma vez um professor me disse que, a seus olhos, certas expressões matemáticas eram mais impressionantes que a “Divina Comédia”. Seguindo a linha da comparação, creio que as obras literárias perdidas sejam meu equivalente mais próximo dos problemas matemáticos sem solução: algo fascinante, que lamentamos e tememos.
A diferença fundamental entre nossas situações é que os problemas perduram pela história, sendo examinados por gerações e, eventualmente, recebendo uma resposta, como aconteceu com a conjectura de Poincaré. Meu professor pode, hoje, estudá-la e compreendê-la; a mim sobra apenas a sombra extremamente pálida da filosofia de Aristóteles sobre a comédia.
Mesmo que isso me entristeça, existe uma certa poesia em saber que esses registros estão perdidas para sempre. Como Stephen Malkmus disse, nós precisamos de segredos.
A dificuldade em defender a direita brasileira
Para quem, como eu, foi criada em um ambiente conservador (pai gerente de banco multinacional, avô mecânico de aviões do governo, colégios católicos, estudo financiado pelo governo FHC), é quase impossível cortar esse cordão umbilical que une a criação familiar da ligação política à direita brasileira. Ou era.
Quando pequena, a Veja era leitura obrigatória. Passávamos bem sem jornal, televisão ou rádio, mas a “Veja nossa de cada semana” era sagrada. As colunas da revista guiaram meu então sutil interesse em política – interesse que, de tanto aumentar, culminou na escolha da faculdade a ser cursada. Isso, claro, ocorreu antes do Reinaldo Azevedo assumir a importância que tem hoje. Não dá para quantificar a relevância dessa observação em poucas linhas.
Interrompemos a assinatura do semanário ainda em Sorocaba, creio que por volta de 1994 ou 1996, devido à queda extrema e impressionante de qualidade – aliás, pelo que percebo hoje, todos os meios de comunicação brasileiros têm apresentado reportagens de teor duvidoso, incluindo minha amada Folha de São Paulo.
Há algum tempo, encontrei esse verdadeiro relatório do Nassif sobre a decadência da revista Veja (ainda em andamento). E é por conta deste trabalho de investigação que posso dizer que tanto ele quanto o Idelber Avelar vêm alterando meu ponto de vista, apresentando provas concretas de que o cerne da mídia conservadora tornou-se algo risível (ainda que bastante perigoso). Portanto, deixo meu “muito obrigada” a você, Nassif!
A propósito: em 2007, o Santander aumentou seu lucro no Brasil em 48% ou 129,6%? Essa informação é extremamente importante para mim, já que meu pai tem uma ação contra o banco. Confio na Reuters/EFE ou na Veja? Futuros analistas financeiros, me esclareçam, por favor.



