Pitangas

Drupas globosas, carnosas, vermelhas e bastante saborosas.

Comendo poeira no asfalto

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Tem gente que age como se o carro fosse uma extensão do corpo. Meu pai, por exemplo.
Você não sente o carro sair quando ele dirige. Só percebe que ele trocou de marchas porque o motor muda o barulhinho. Não desvia um milímetro da angulação da faixa de trânsito.
Andar de carro com meu pai é praticamente sentir o mundo deslizar sob seus pés.

E nessa entra toda a responsabilidade de, como filha única, ser a herdeira da caranga envenenada. Tá, do Corsinha sobrevivente ao Oziel, mas enfim.
Nas aulas tudo ia bem. Curvas à esquerda e à direita com perfeição, a troca de marchas está quase no ponto, estacionamento na rua melhorando com o tempo e descobri que quando nasci D’us me disse “desce e arrasa nas balizas”. Tudo certinho.
Mas meu, EU NÃO CONSIGO EVITAR QUE O CARRO MORRA NA SUBIDA.

No centro de treinamento de Campinas tem uma rampa enorme que dá acesso à área de treino de baliza. Sábado de manhã, todo mundo fazendo aula, milhares de adolescentes que dirigem desde seus 13 anos de idade. “Ou seja, milhares de pessoas que vão assistir ao meu fiasco”, eu penso.

A primeira rampa não é um desafio muito grande. Dá para sair tranqüilamente dela só controlando a embreagem. Ok, parte um cumprida.
Sobe mais um pouquinho, estaciona o carro… hora de sair. Segura a embreagem, acelera um pouco o carro… solta mais um pouquinho a embreagem e…
PUMF.

A pior coisa de falhar é que parece que o mundo inteiro passa a prestar atenção em você após o erro. Todos os olhares se concentram no seu carro, ainda que alguém esteja subindo com o carro na calçada.
Ok, somos treinados para tudo suportar. Desliga o carro, liga de novo, engata a primeira, controla a embreagem, acelera…
PUMF.

Três vezes eu repeti o procedimento. Três vezes o carro morreu.
Eu já estava prestes a sair do carro andando quando um aluno estaciona ao meu lado, rindo horrores.
– Ô moço, sabe aquelas pessoas que não sabem dirigir?
– *gargalhadas* Sei, sei sim.
– Então, eu sou uma dessas pessoas. Me ajuda a sair com essa caravela aqui, vai.
Finesse sempre.

– Olha, você não tá dando força suficiente para o motor… quando você vai sair, tá acelerando muito pouco. Pisa até você ouvir o barulho do acelerador.
Eu pisei.
– Não, mais forte. Deixa o carro roncar.
Eu pisei mais forte.
– Tem certeza que você tá pisando no acelerador?
– Meu, você quer que eu saia cantando pneu na subida, é isso?
– Não, calma. Acelera mais um pouco e tira aos pouquinhos o pé da embreagem.

Segui as instruções do moleque e… não é que deu certo?

“Acelera mais um pouco e tira aos pouquinhos o pé da embreagem”, disse Deus no sexto dia.
E as mulheres do mundo aprenderam enfim a controlar o carro na subida tranqüilamente.

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