Un michino rojo
Coisa boa do curso de direito: você aprende que tudo tem classificação, um lugar no mundo.
Coisa boa de saber tratar sobre literatura: você aprende categorias novas, com as quais os gênios já se ocuparam anteriormente. E como a maioria das pessoas não os conhece, você passa por inteligente sem o ser – porque inteligentes eram os criadores dessas categorias.
Cortázar, lúdico que era, criou três tipos de personagens: os cronópios, amantes da poesia, úmidos, desprendidos, um pouco esquecidos, poéticos, cantantes e desordenados, propensos a desanimar-se por qualquer coisa, porém procuram viver a vida em sua plenitude e em diversos países; e os famas, prudentes, metódicos, organizados, práticos, pessimistas, que nunca falam sem ter certeza de que suas palavras são apropriadas.
Umberto Eco (meu ídolo) escreveu Apocalípticos e integrados (comentário em PDF). Integrado é aquele que se adapta, que ingere a programação da TV sem culpas, segue as modas, não teoriza, consome. O apocalíptico fareja a decadência, desconfia do que a multidão idolatra, é a elite que teme o desaparecimento da cultura – stricto sensu, sempre.
Há uma terceira classificação, relacionada aos clowns. A subdivisão mais conhecida os separa entre os brancos e os augustos. O clown augusto é o palhaço mambembe, coadjuvante, ridículo, manipulado pelo clown branco, que encarna a persona do mentor, intelectualizado e titereiro. Mas o clown branco acaba demonstrando suas fragilidades, expondo o medíocre que habita em todos nós. E, de repente, o augusto surpreende, mostra-se genial.
O clown branco representa a ordem rígida, o dever. O clown augusto é invenção, quebra de rotinas, surpresa.
Toda essa overdose de cultura para dizer que eu, fama, achei meu cronópio, que faz uma patética clown branca aprender a reconhecer e prezar augustos. Que faz uma fama medíocre e workaholic ter vontade de sair da sua rotina só para conhecer pessoas novas. Que ainda se emociona com coisas simples e bonitas, e julga o caráter pelo que é dito, e torna minha existência melhor só por mandar um sinal de vida durante o dia.
E antes que reclamem: a conta do parágrafo do Cortázar está, sim, correta. Além dos cronópios e famas, existem os esperanzas. Mas não há mais espaço para estes na minha vida. Não há mais limites ou cerceios, mais ataques de ciúmes, mais noites passadas a choro e velas.
Agora só quero os perfumes, as risadas altas, as conversas musicais e um belo par de olhos me olhando de longe e de esguelha.
PS.: textos sobre cronópios, famas e esperanzas estão por toda a internet; minha recomendação vai para este site com trechos de obras do Córtazar – nada melhor que os originais, non è vero? O texto sobre a alegria dos cronópios é de uma poesia tão delicada que parece… uma torta de maçã feita com a receita da mãe.




Puxa! Vivendo e aprendendo… Inté!
ju rigoni
3.08.2008 em 6:10 pm